Quando fechou o livro, imediatamente veio-lhe aquela sensação melancólica que sempre aparece ao terminar uma leitura. Saudade. Sente saudade do livro, do enredo, das personagens, dos cenários pelos quais viaja na leitura. Assim que termina a última palavra surge algo dentro dela que grita “nãããããõoo, vamos voltar e ler de novo!” Leitora ideal, ela sente como se o autor falasse diretamente a ela. Como que pode ouvir a voz de Huxley sussurrando em seu ouvido “cuidado com o velho que disfarça-se de novo”. Mais uma estória que se mescla a sua existência, ao seu âmago, tornando-se parte do que a constitui, alterando e revitalizando seu olhar sob o mundo em que vive.
Mas quem fecha um livro deve, logo, partir pra outro. Prender-se ao livro acabado é perder os tantos universos que os outros podem trazer. Além disso, há um motivo a mais pra se animar com o final. Agora, ela pode ir, de fato, a uma livraria. Escolher títulos através da frieza da tela do monitor, embora seja prático, afinal você os recebe em casa, é bem menos pessoal do que ela gosta. Sinestésica até no espaço sideral, ela gosta de tocar. Livros, coisas, pessoas… até as cores ela sente que pode tocar, sentir, diferentemente uma da outra. E hoje, depois de tanto tempo, ela pode descer as escadas do prédio, andar pelas ruas, parando, se assim desejar, em algum lugar que chame atenção. Talvez sentar num banco e observar o movimento. Então seguir caminho e entrar na livraria, sentir o cheiro da livraria. Não é incrível e maravilhoso o cheiro das livrarias!? Sejam livros novos ou usados, o cheiro dos impressos é delírio. É como se pudesse sentir o cheiro das flores que Mrs. Dalloway decidiu ir comprar ela mesma, ou o cheiro de leite no riso do menino de Kolody. Ela passa a mão lenta e deliciosamente pela lombada dos livros na estante. Lê os títulos, abre um ou outro para checar a orelha. Sem pressa. Agora é possível se deixar estar em um estabelecimento comercial, procurando por um bem não essencial, embora tão essencial, pelo tempo que se queira. E sem precisar de uma máscara. Depois de alguns minutos escolhe um título para degustar. Olha em torno, escolhe uma mesa. Próximo à janela, para olhar a rua, ver as pessoas andando, conversando, interagindo, de mãos dadas. Ela senta e logo é brindada com um encontro casual acontecendo do outro lado do vidro. Um jovem casal, reduzindo o espaço entre eles a nada. O toque dos lábios, o encontro dos corpos. Ela pode sentir mentalmente o calor que passa de um para o outro. Então se lembra a primeira pessoa que reviu e abraçou depois da quarentena. Não podia tocar a mãe enquanto não fosse completamente seguro. Ela ainda se encontra nessa fase pós tragédia, tentando entender como é o seu mundo agora. Por isso toda vez que ela volta a ver acontecendo algo que antes não se podia mais fazer, seu pensamento vagueia sem que ela possa controlá-lo.
Quem a tira desse torpor balbúrdia mental é a atendente. Há quanto tempo, não é mesmo, ela diz. E em seguida pergunta se vai querer o mesmo de sempre. O mesmo de sempre tem gosto de estar em casa. É como o mesmo bolo de sempre que a mãe faz. O mesmo menu de sempre para o Natal; tem gosto de lar e traz segurança. Sim, o mesmo de sempre é o que ela precisa agora, para sentir que o mundo está realmente voltando seu eixo ao normal. Abrindo o livro no início do primeiro capítulo ela saboreia as primeiras palavras. Adora as primeiras palavras dos livros. São como a primeira troca de olhares com quem se ama. Você pode dizer que tipos de emoção terá com alguém ao primeiro olhar, ou com um livro às primeiras palavras. Quando termina o primeiro capítulo chega o café. Tanto tempo esteve privada desse prazer intimista. Um livro e um café, na rua. Antes de tocar na xícara, ela embebe as mãos no álcool em gel, espalha, fricciona. Alguns bons hábitos deverão permanecer, ao que tudo indica. O primeiro gole de café, comparável às primeiras palavras de um livro. Num átimo o mundo parece estar de volta ao seu lugar. A cafeína no organismo e estar de volta àquele lugar que costumava fazer parte de sua rotina de lazer trazem a sensação de conforto. Por um milésimo de segundo parece que a Terra parou de girar e se resume ao sabor e à sensação de estar ali, segura, confortável, ancorada em seu mundo. Ela fecha os olhos para saborear melhor. Talvez de olhos fechados nossa consciência consiga materializar melhor as sensações palatais de beber café, ela pensa.
Quando abre novamente os olhos, nota que há alguém estancado a sua frente, apenas observando o modo como ela tira até a última gota de prazer daquele momento efêmero. Há meses ela não o via. Grata surpresa. Encontros casuais lembram o gosto daquela última pitanga madura e não dilacerada por pássaros, encontrada no final da safra. Um achado. Instantaneamente ela se lembra porque não o via há tanto tempo. A doença atingiu em cheio a família. Ela soube sobre a irmã dele por whatsapp. A comunicação fria e impessoal das mensagens via celular era a única forma de se falar sem o risco de contágio. Notícias que, normalmente, as pessoas deixavam para conversar pessoalmente precisavam ser comunicadas, muitas vezes com urgência, de forma não presencial. A enfermagem foi uma opção consciente na vida de Mariele. Vinte anos dedicados à profissão. Quando teve seu filho, seis anos antes da doença, misturavam-se dentro dela a felicidade em voltar ao trabalho e a angústia em deixar o filho aos cuidados de terceiros quando voltou da licença maternidade. Ele era ainda muito novinho. Mas quando ela chegava ao local de trabalho ninguém poderia contar de sua angústia, tal era seu ânimo e dedicação. Quando precisou ser afastada por suspeita de contágio, ela lamentou as vidas que não pôde mais ajudar a salvar. Mas lamentou ainda mais ter que ficar isolada da família, principalmente do filho. Jean chorava muito quando ela saiu de casa porque resolveu isolar-se em um lugar longe dele. Mesmo com o coração em frangalhos, sabia que era o melhor a fazer. Quinze dias em quarentena, até sumirem os sintomas e ela estaria de volta com ele. Mas no décimo dia da quarentena deu entrada na UTI com insuficiência respiratória. Sem visitas. O respirador que ela utilizou nos primeiros sete dias de internamento apresentou defeito. Não foi possível substituí-lo a tempo. Três dias após o óbito chegou uma nova leva de respiradores; alguns já chegaram com defeito. Isso tudo ela teve de saber via mensagem. Estava lá, escrito. Sempre que pegava o celular pensando em escrever algo ao amigo, abria a conversa e as mensagens estavam lá… dia após dia, as notícias da evolução da doença da irmã, as dificuldades cada vez maiores para conversar com o sobrinho e explicar porque a mãe não voltava para casa… se eram pra ser apenas alguns dias! Ela não sabia o que escrever ao amigo. Como se reata uma conversa de whatsapp depois dessas mensagens!? Melhor deixar a poeira sentar! Alguns meses talvez. A última mensagem que ela havia escrito, logo após ter lido que não haveria funeral, foi colocando-se à disposição para o que fosse necessário. Então provavelmente ele teria escrito se quisesse conversar, se quisesse qualquer coisa. Tudo isso lhe passou pela cabeça em flashback enquanto ela sinalizava para a cadeira a sua frente, oferecendo o lugar ao amigo, e alcançava-lhe o frasco de álcool em gel.
Depois de conversarem sobre o título que ela lia, o qual, já havia decidido, levaria para casa, ele contou como estava a vida na família. A tristeza inevitável, é claro, e a necessidade de seguir em frente. O cunhado ainda estava em casa, cuidando de Jean, até que pudesse reaver emprego, perdido por conta da crise, coisa que deixava o menino se sentindo mais seguro. E quanto a ele? Conformado? Quem pode se conformar com algo assim? Sim, conformado. Conformar-se é a única opção. É estranho, porque o mundo é o mesmo, mas não é o mesmo. As pessoas de sempre não são mais as mesmas de sempre. É uma sensação muito difícil de explicar. Muitas vezes, ainda se tem a impressão de que tudo não passa de um pesadelo. Essas palavras do amigo tiraram um tanto do prazer dela em beber o café. O mesmo de sempre. Ela o deixou pela metade e resolveu pedir outro. Um novo, nunca antes experimentado. Quando a atendente veio tirar o pedido do amigo, ela aproveitou. Que a garçonete escolhesse, ela provaria um totalmente novo, e de surpresa. A vida exigia-lhe que fosse assim.
Após alguns minutos de conversa atualizando-se sobre suas vidas, o assunto recaiu sobre o livro que tinha na mão. Ela contou do quanto pela manhã foi tomada de alegria pela perspectiva de ir a uma livraria e realmente escolher um livro dentre os da estante, e de como encontrá-lo tornou aquele curto passeio em um momento ainda mais precioso. Lembraram-se do quanto sentiram saudade disso: um café e uma conversa. Ele havia entrado ali apenas para um café mesmo. “Ao oferecer-se para ajudar o cego, o homem que depois roubou o carro não tinha em mira, nesse momento preciso, qualquer intenção malévola, muito pelo contrário, o que ele fez não foi mais que obedecer àqueles sentimentos de generosidade e altruísmo que são, como toda a gente sabe, duas das melhores características do gênero humano, podendo ser encontradas até em criminosos bem mais empedernidos do que este, simples ladrãozeco de automóveis sem esperança de avanço na carreira, explorado pelos verdadeiros donos do negócio, que esses é que se vão aproveitando das necessidades de quem é pobre.” Esse início do segundo capítulo do livro que ela leu para ele em voz alta, como tantas vezes antes já fizera, eles não souberam dizer porque, mas os pegou desprevenidos. Era como se o próprio português vencedor do Nobel tivesse sussurrado o trecho em seus ouvidos. E isso os colocou de cabeça para baixo, com um nó na garganta. Ela teve ainda mais certeza de que era aquele o livro feito para ela naquele momento. Para ela, era essa a realidade por trás de toda concretude do mercado editorial. Existem livros feitos para cada pessoa, em cada momento de sua vida.
Ela abriu os olhos, saindo do sonho um tanto assustada. Ensaio sobre a cegueira repousava onde ela o deixou, em cima do criado mudo.
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Minha paixão por escrever vem de criança, com as redações da escola. Apaixona-me, também, a literatura e demais artes: mais do que conhecer o mundo, elas nos permitem senti-lo, dentro e fora de nós mesmos.